Acadêmicos
Maria de Fátima Silveira Pavei

 

Maria de Fátima Silveira Pavei
Cadeira: 19
Posição: Fundador

Biografia

 Maria de Fátima Silveira Pavei é graduada em Letras, pós-graduada em Linguística Aplicada a Língua Portuguesa, mestra em Ciências da Linguagem e pertence a AILA - Academia Içarense de Letras e Artes. Reside em Içara, Santa Catarina. Lecionou Língua Portuguesa, Literatura Brasileira e Produção Textual em escolas municipais, estaduais, no Colégio Cristo Rei de Içara e nas universidades: UNESC e UNISUL de Santa Catarina. Em 2006 e 2007, foi vencedora de dois concursos, de conto com o texto "Alucinada" e de crônica com o texto "A lagartixa e o gato”. Em 2008, seu projeto “Quem ama literatura, ama a APAE” deu origem ao livro Dois Olhares a Quatro Mãos Falam Daquilo que Ouvem (coautor - Alexandre Moreira), cuja renda foi revertida a APAE. Escreveu o livro Eco de Duas Vozes: Verso & Prosa – Guia da Nova Ortografia (coautora - Elza de Mello Fernandes). Em 2010, foi a idealista do Concurso Público para a escolha do Hino Oficial dos 50 Anos de Emancipação Política do município de Içara. No dia 30 de dezembro de 2011, dia em que Içara completou 50 Anos de Emancipação Política, num momento solene apresentou aos Içarenses o livro "Além dos Trilhos do Trem - 1961/2011- 50 Anos de Emancipação Política de Içara. Atualmente é cronista do Jornal Gazeta de Içara, colunista do Içara News e escritora.

Obras

Somos BRASILEIROS!






CHEGOU A HORA!!! É a manifestação da alma popular erguendo-se com força, saudando o Mundo numa demonstração de amor e preocupação com seu povo. É um querer mostrar as pessoas que há outros ideais, pensamentos capazes de transformar para o bem comum.

CHEGOU A HORA!!! De abraçar a vivência da fraternidade, do respeito e da tolerância. Tornar público o descontentamento com a ordem decretada. O BRASIL unido demonstrará a ideologia e ao mesmo tempo partilhará de um saber comprometido e solidário. Este sentir-se incomodado é voltar o olhar para um povo, um por um e ler seus pensamentos.

CHEGOU A HORA!!! De perceber que chegou o dia que todos esperavam “DE MUDAR”. Ninguém mais quer ficar quieto e imóvel. Enfim, sem reação alguma, recebendo ordens sem optar, como se estivesse sentado à soleira de uma porta, as mãos brincando com gravetos e pedregulhos, porque a mudez favorece quem só pensa em si.

CHEGOU A HORA!!! De todos saberem que este grupo de jovens, que andam nas ruas, são a imagem da liberdade e da responsabilidade! Chegou acolhendo com ternura o POVO BRASILEIRO. É o desejo “DE MUDAR”, mesmo ainda tímido, mas é real e verdadeiro, manifestando-se livremente, desnudando seus íntimos, sem agredir, insultar ou denunciar. A certeza da consolidação do grupo, fortalecendo-se, organizando-se e tornando-se uma força viva capaz de transformar.

CHEGOU A HORA!!! De difundir idéias e modificar a ortodoxia existencial, eliminar preconceitos, substituindo valores mesmo diante das dificuldades. As pessoas precisam se conscientizar que temos que ter coragem de renunciar posições cômodas, para desenvolver um trabalho coletivo mais relevante, promover uma revolução social nos costumes que necessitam evoluir coetâneos à sociedade de que fazemos parte, “BRASIL”.

CHEGOU A HORA!!! De refletir, que o homem que não se omite, realiza e constrói. Hoje já não basta resistir, é necessário transformar. Em busca dessa transformação é que lutamos. Somos contra esquemas dominantes, monopolizadores, capazes de enfraquecerem ainda mais o seu povo. Essa transformação pela qual lutamos é uma proposta aos IÇARENSES. Estamos aqui para trabalhar pela coletividade.

Vamos construir um BRASIL NOVO para todos, porque CHEGOU A HORA!!!


Crônicas do cotidiano - 24/06/2013

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Içara, Querida Içara




Por entre as içarobas se escondem mil segredos. Das nossas Escolhedeiras de Carvão, dos Ex-Ferroviários, das 55 Comunidades de Içara... Em cada canto desta terra, uma qualidade visivelmente querida por todos. A simplicidade, os trabalhadores ao longe sobre um trator ou andando por entre as lavouras verdes demonstrando um capricho em suas evocações sugestivas e formosas. Assim é Içara e eu não me canso de elogiar... O Içarense é um povo que transborda de felicidade por pertencer ao lugar onde vive. As histórias contadas de geração em geração é o motivo desta graça, uníssoma... A imortalidade existe? Eu senti em cada cantinho de Içara, quando eu e Sanete perambulamos com um gravador e um livro buscando a história que preguiçosa deslizava no papel, desenrolando-se em todos os quintais. A beleza do Içarense se reafirma e cresce em densidade, nas manifestações expressas ou nas fotografias. Nada é mais rico do que a preciosidade com que lidamos todos os dias, às vezes distraídos. Essa garimpagem, que Deus nos permite, nunca deixará de produzir surpresas. Outro dia ao atravessar a rua, lá longe vinha o “Gengiskan”, tirei da bolsa uma máquina e o fotografei. Uma moça que ia para a Academia, olhou para mim e disse: “Se vê cada coisa neste mundo!”. Gritei “sou escritora e ainda escreverei sobre o “Gengiskan”. Ela entra na Academia, entro no carro e ando alguns minutos atrás do “Gengiskan”, só para ouvir “Que beijinho doce, que ela tem”, encheu a cidade de passado e alegria. E sai silenciamente pensando, que o moço da carroça musical deixa nesta cidade muitas alegrias, e o Içarense sabe. Nossa terra tem Içarobas aonde canta o “Gengiskan”. É Içara florida, cujas árvores florais tomam conta da estrada... E as flores nas casas, as roupas deitadas sobre as janelas, pegando sol. Estou escrevendo sobre Içara, e são nestas pequenas ocasiões que o escritor recolhe no ar a literatura para poder salvar o mundo e a si mesmo. O escritor nasceu para transitar por entre as letras e livre, sem amarras... Mesmo que a chuva quente e sonora lhe fizer tremer de frio, sentirá o beijo dos pingos da água... Quando entrei nos museus desta cidade para construir um capítulo do meu livro, senti que Içara é única! As pinturas expostas nas paredes da Casa da Cultura outro presente dos céus, a cidade Içarense viva. Apreciei cada imagem, uma por uma. Em pensamentos li os nomes das pessoas que estão escritos embaixo de cada gravura: Pacífico Pizzetti, Evaristo Piazza, Cecília Dal Toé, Antônio Guglielmi, Luiz Guglielmi, Paulo Rizzieri e Celso Cabreira. Parabenizei-os em silêncio, por terem deixado o egoísmo e valorizado as mãos do artista e embelezado as paredes da antiga igreja, na época (1945). Lembrei-me do meu avô que gritava alto, e ninguém ouvia.... Volta-me novamente a cena do “Gengiskan”. A música entrou pela janela, atravessou a casa e a manhã se transformou em alegria, mais uma vez...

Maria Fátima Pavei

Crônicas do cotidiano
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A árvode da minha rua




Todas as manhãs após o café matutino, acomodo-me numa cadeira rústica que decora a sacada do meu apartamento. Aprecio um pé de jabuticaba altíssimo, com suas frutinhas vermelhas. É a planta mais bonita da minha rua, abraçada por belas roseiras e variedades de flores coloridas. Sobre sua copa milhares de passarinhos, que se alimentam das frutas suculentas, e seus cantos anunciam o novo dia. Numa manhã ensolarada, Seu Hilário convidou o pessoal da rua para uma festa que aconteceria embaixo do pé de jabuticaba. Havia embaixo da árvore uma mesa de madeira decorada com uma toalha italiana de linho branco e bordados dourados. No centro, um belo vaso de rosas e algumas telas pintadas por uma artista única, destacavam-se por entre os galhos da árvore. O frescor da tarde primaveril embelezava a festa. De repente, o pé de jabuticaba começou a crescer. Cresceu tanto que chegou até o céu! Olhávamos para cima sem entender, ficamos pequenos embaixo da árvore. A casa do seu Hilário parecia uma caixinha de música, e ficamos quietos sem nada entender. O netinho do Seu Hilário divertia-se num balanço pendurado na árvore, nem observava que a árvore crescia, crescia, crescia... Da casa azul vinha uma luz que transformava a árvore, ficava oras dourada ou de um verde quase amadurecido. Corri, atravessei a rua e voltei pra minha sacada para ver se a árvore havia mesmo se tornado gigante. Para minha surpresa ela continuava do mesmo tamanho, com seus passarinhos e frutinhas embelezando o jardim da casa azul celeste. Fiquei triste, eu queria tanto subir na árvore e conhecer o céu! Voltei para a festa e senti meus sonhos furtados, não havia festa e só o Seu Hilário, que olhava sério para mim, tentando entender minha fisionomia pálida e assustada. Disse-lhe:“O pé de jabuticaba tem histórias para contar, é antigo e por aqui passaram várias gerações. O Senhor preserva-a com carinho.” Seu jeito bondoso de quem já viveu muito, disse-me: “Você adora esta árvore, que não é de jabuticaba. Esta árvore faz parte da minha história e que bom que você a admira.” Então, acrescentei: “Amo esta árvore, já a fotografei, guardo-a num porta-retratos.” Seu Hilário continuou varrendo embaixo da árvore. Despedimo-nos. Até hoje continuo apaixonada pela árvore da minha rua.

Extraído do site www.icaranews.com.br
Crônicas do Cotidiano

03/02/2012


 
Sedução Poética



A arte é a salvação, transforma as pessoas. A música, as pinturas, os livros, entre outros, transporta-nos para o tão sonhado mundo melhor. Estamos vivendo numa época em que muitos se esqueceram dos bons valores. A literatura é uma das mais belas heranças que o escritor deixa a humanidade, amenizando as dores do cotidiano. As futuras gerações agradecerão, é o que sobrará de nós escritores e artistas, que deram um pouco de si em prol de uma superação se instalando como iguaria fina, misturando as artes do espírito sensível com os fatos da atualidade, mesmo que passe embaixo apenas da janela do autor. Em pensamentos, daqui 100 anos, um bisneto olhará para as minhas obras e dirá “Esta mulher é a minha bisavó, escreveu alguns livros e ...”. Preciso mais? Não, já morrerei feliz. Outro dia eu estava olhando para os meus dois filhos e pensei “Será que ensinei a eles o que deveria ensinar? Nós mães somos assim, queremos ser perfeitas, mas sabemos o quanto deixamos a desejar no mundo de hoje. Coloquei as fotos dos dois num porta-retrato, próximo aos livros na minha biblioteca, e todos os dias sento diante daquela pintura e volto ao tempo em que eram os meus bebês, sinto muitas saudades, o tempo passa... O retorno é extremamente gratificante. Os meninos correndo à beira mar, fazendo arte na varanda ou me avisando que aquela chuva intensa é sol, porque queriam que eu os levassem ao mar. A viagem de um escritor é sempre ilimitada, porque não pretende deixar ao leitor apenas a ficção, mas também um ensinamento, a busca de si próprio, o conhecimento e a interação. Em uma sociedade em que você precisa do consentimento "do outro" para existir, não diga que concordas comigo. Quando alguém diz que concorda comigo tenho a sensação de que fiz algo errado... Obra de referência "O Retrato de Dorian Gray". Hoje não quero pensar naquilo que todo mundo pensa, porque parece que penso de trás para frente. Quando estou inspirada escrevo tudo o que você não quer ler, por que será? A Martha Medeiros disse: “A nossa rotina só é chata quando não temos inspiração”. Cito outra leitura para que possamos entender um pouco mais sobre a humanidade, é ler a principal obra de Balzac, A Comédia Humana, que fala de sentimentos, realidade social, descrições minuciosas, cotidiano da vida burguesa, imaginação e valorização das paixões humanas. O escritor passava aproximadamente 15 horas por dia escrevendo movido a muitas xícaras de café. É estranho a vida, vamos pensar. É, às vezes esses amores “Os meus meninos” surgem concretos, repousando na minha biblioteca. São os meus anjos cordiais, pássaros que passam, enfeitam o pequeno quarto onde dormia a vovó (antes de se tornar a biblioteca). Os instantes com algumas cores, voejam e partem, deixando na minha alma o sorriso, enquanto um anjo tagarela afasta-se e não me avisa se vai voltar...

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Lembranças daquelas CAPELAS



Acordei-me cedo e fui com a minha tia Delma ao túmulo da minha mãe, e enquanto estávamos lá fiquei perdida em pensamentos: a fragilidade do ser, a preocupação desnecessária que carregamos conosco, a vida é uma fração de segundos... Quando eu morrer quero estar com ela, só que não quero que coloquem flores naturais e esqueçam de mim (no ar um cheiro ruim), prefiro as artificiais e algumas ilustrações singelas. Aqui é a nossa última casa, e lembrei-me do escritor Lauro Junkes que faleceu semana passada, conforma-me seus escritos imortais, eis a beleza de quem cria o mundo através das letras, vai o corpo e fica um livro, um poema, uma idéia... Foram 20 anos de pesquisas na Biblioteca Pública, na própria Academia, na Universidade Federal de Santa Catarina, etc... Seu objetivo era tornar conhecidos os principais nomes da literatura. Lembrei-me de algumas obras suas: O Leão Faminto, Aníbal Nunes Pires e o Grupo Sul, O Faro da Raposa, entre outros. Lembranças, vão e vem, lembrei-me de uma foto que tirei com ele num Encontro de Escritores, ele já estava doente, porém apaixonado pela literatura. As pessoas passam por este mundo e vão embora, disse minha tia, enquanto jogava água na capela, e me perguntou: “ ...escreverá algum texto sobre o momento?” Pensei e lhe respondi: “talvez sim, talvez não...Depende da minha inspiração”. Sorrimos e nos calamos. Andei um pouco dentro do cemitério, chamou-me a atenção um lindo sorriso de uma mulher em um porta-retratos, e um homem chorava contemplando a amada que partiu. Associei a cena ao poema “O teu riso” do escritor Pablo Neruda: “Tira-me o pão, se quiseres, tira-me o ar, mas não me tires o teu riso... Não me tires a rosa, a lança que desfolhas, a água que de súbito brota da tua alegria, a repentina onda de prata que em ti nasce... A minha luta é dura e regresso com os olhos cansados às vezes por ver que a terra não muda, mas ao entrar teu riso sobe ao céu a procurar-me e abre-me todas as portas da vida......À beira do mar, no outono, teu riso deve erguer sua cascata de espuma, e na primavera quero teu riso como a flor que esperava, a flor azul, a rosa da minha pátria sonora. Ri-te da noite, do dia, da lua, ri-te das ruas tortas da ilha, ri-te deste grosseiro rapaz que te ama, mas quando abro os olhos e os fecho, quando meus passos vão, quando voltam meus passos, nega-me o pão, o ar, a luz, a primavera, mas nunca o teu riso, porque então morreria.” Resta-me agora, as lembranças daquelas CAPELAS...


 
Natal Solidário



O dezembro silencioso anuncia, aproxima-se o Natal! Uma energia fantástica invade nossos corações, momento de reflexão e solidariedade. O Natal Solidário, promovido pelo Jornal Gazeta, acontecerá dia dez de dezembro, cujo objetivo é arrecadar cestas básicas e encaminhá-las aos nossos queridos velhinhos, crianças e doentes do nosso município, Içara. Acredito que estamos unidos num só gesto de amor! Observando minha cidade do quarto andar, a vida vive em harmonia com o meio ambiente, e fauna e flora vibram pelas manhãs. Um coro matinal de pássaros paira sobre os galhos das árvores. Içara, uma espécie de tabuleiro, no coração do Sul, estende-se numa composição belíssima e flores oscilam por cima das árvores verdejantes. O colorido que flameja e tremula, enquanto os insetos cruzam silenciosamente por entre os galhos das árvores, meio ocultos pelas brumas das manhãs. Nesta época natalina os poetas se inspiram, envolvendo-nos nas suas palavras. O toque mágico da poesia é emoção. Os poetas são sonhadores, e talvez não saibam o que causam no coração do leitor. Lembra-me a homenagem em que Vinicius dedicou ao poeta Rubem Braga “Digam-lhe que é Natal, que os sinos estão batendo, e estamos no Cavalão: o Menino vai nascer entre as lágrimas do tempo. Digam-lhe que os tempos estão duros e falta água, falta carne, falta às vezes o ar: há uma angústia! Mas fora isso vai-se vivendo. Digam-lhe que é verão no Rio e apesar de hoje estar chovendo, amanhã certamente o céu se abrirá de azul.” Outra pérola é o poema “Natal 2010” do escritor Pinheiro Neto “Bate à nossa porta mais uma vez o Natal: barbas brancas, passos lentos, sorriso tímido voz matinal.Mais uma vez bate à nossa porta o Natal: uma pobre manjedoura, ecológicos animais, escatológicos humanos, estrela triunfal. O Natal mais uma vez bate à nossa porta: famílias reunidas, anjos distorcidos esperanças corroídas”. É a solidariedade que importa neste NATAL, a estação do renascimento dentro de cada um de nós. (Maria de Fátima S. Pavei)


 
O NATAL DAS “MARGARIDAS”



O Natal se aproximava, e a professora Salete Scotti dos Santos, que hoje é uma margaridinha no céu, me chamou e disse: “Vem cá, margaridinha, quero lhe desejar um Feliz Natal. ‘‘Aproximei-me e disse: “Por que sou uma margaridinha? Deixa-me ser uma estrelinha? Falei sorrindo, nossos olhares estavam direcionados a uma árvore de Natal, que todos os anos a escola decorava num lugar especial, e as pessoas até tiravam fotos próximo a árvore. Ela também sorriu e me respondeu: “Somos margaridinhas no jardim de Deus. Você tem a sua estrelinha, e o brilho vai depender de você, cultive-a. ‘‘Despediu-se de mim, desejou-me um feliz Natal e saiu cantando. Na época eu substituía Tereza Feltrin Borges, e espelhava-me em ambas, queria me tornar uma professora tão doce quanto Salete e poética quanto Tereza. Queridos leitores, guardem as belas frases que alguém um dia lhe disse, guarde o Natal das margaridas. Pense na poesia de Drummond. “É talvez o menino suspenso na memória. Duas velas acesas no fundo do quarto. E o rosto judaico na estampa, talvez. O cheiro do fogão em cada panela. São pés caminhando na neve, no sertão ou na imaginação”. Enquanto escrevia, telefonei para a Vó Luiza e lhe perguntei: “O quê significa o Natal para você?” Respondeu-me: “Natal é tempo de amor, alegria e paz. Tempo de preservar o meio ambiente e rezar.” Suas palavras foram belas, mas a preocupação da vovó com o meio ambiente trouxe enriquecimento para esta crônica. Observei que não adianta comemorar o Natal sem verde, sem flores, sem água e sem os animaizinhos perambulando pelas matas. Um Natal menos “natureza” se transformará num Natal triste. A sabedoria da vovó é uma lição para a preservação. Neste emaranhado de sentimentos, para mim o Natal é tempo de pedir perdão, se machucamos alguém, é tempo de despertar a criança que está dentro de nós, olhar para a pessoa e dar um beijo e um abraço. Observando a árvore que embeleza a sala, senti uma grande ternura pela humanidade. O enfeite da árvore florida de cores e objetos, e o próprio silêncio da árvore é a mais bela poesia enviando mensagens, que mais tarde ou mais cedo todos nós temos que nascer de novo, como Jesus falou, pois de nada adianta remendar o homem. O caminho da salvação é deixar que nasça um novo homem. Esse novo nascimento ocorre pela sensibilidade que temos de perceber a nossa unidade essencial com Deus. Eis o verdadeiro significado do Natal! Faço um convite especial aos leitores. Que tal neste Natal buscarmos o anjo perdido em nós mesmos? Pense nisso, assevere-o, preste atenção na resposta. O motivo pelo qual muitas pessoas deixam passar suas vidas sem emoção, é porque seus corações se acham tão atulhados com detalhes íntimos do dia-a-dia, que não sobra lugar para usufruir de momentos especiais. A época de Natal é a ideal para prepararmos a nossa alma e nascermos novamente, em forma de “margaridinhas”, e que as nossas estrelinhas brilhem cada vez mais.

(Maria de Fátima S. Pavei)



 
Quando a inspiração foi embora...



Olho para a rua e para os livros, busco uma inspiração. Rubem Braga aparece na minha frente, não sei se está sorrindo ou rindo de mim! Um fenômeno, único escritor que conquistou um lugar definitivo na nossa literatura, exclusivamente como cronista. Abordava assuntos do dia-a-dia, falava de si mesmo, de sua infância, dos seus primeiros amores. Impregnava tudo que escrevia de um grande amor à vida – a vida simples, não sofisticada, dos humildes e sofredores. A riqueza da poesia acompanhava cada crônica que ele publicava nos jornais. Na crônica “O Homem do Mediterrâneo” ele foi fantástico! Em prosa mencionou o amor que sentiu por uma mulher “Como o Brasil está longe, além dos mares, das gerações! Mas, mesmo na minha loucura mansa, perdida toda a memória, talvez eu guardasse um certo nome de mulher, perante um desses mármores lavados pelas chuvas, dourados pelos sóis, eu me lembrasse vagamente da pele de seu corpo e sentisse, talvez, uma confusa, violenta vontade de chorar”.
Imagino que em algum lugar do mundo tem alguém sem inspiração e precisa escrever uma crônica! Abro uma gaveta, esbarro-me em Ernest Hemingway, autor do livro “O Sol também se levanta”, uma narrativa sobre as desilusões de um grupo de americanos ricos, exilados em Paris logo a Primeira Guerra Mundial. Relembro o enredo e retorno ao meu objetivo, escrever uma crônica. Estou sem inspiração, pareço a Lygia Fagundes Telles, que escreveu um conto, cujo título é até engraçado “O crachá nos dentes”, sobre um cachorro que falava no telefone, fazia piruetas e dançava. Imagino que ela estivesse sem inspiração. Sinceramente, é difícil pensar quando seus pensamentos estão em outro contexto. A idéia flui e foge como uma borboleta que invade a sua biblioteca, de repente dá um adeus e vai embora.
Segundo Sartre, os seres humanos nascem para serem livres. Mas, liberdade implica também em responsabilidade. Somos responsáveis pelo que escrevemos ou deixamos de escrever. Não há satisfação maior para o escritor do que quando este se sente aceito e valorizado através daquilo que escreve. Num impulso, abro o livro de poesia, e lá vem Fernando Pessoa falando desta arte, transformar em palavras as idéias que vagueiam na nossa mente “ Dizem que finjo ou minto / Tudo que escrevo. Não. / Eu simplesmente sinto / Com a imaginação. / Não uso o coração. // Tudo o que sonho ou passo, / O que me falha ou finda, / É como que um terraço / Sobra outra coisa ainda. / Essa coisa é que é linda. // Por isso escrevo em meio / Do que não está ao pé, / Livre do meu enleio, / Sério do que não é. / Sentir? Sinta quem lê!”.



 
Palavras, palavras...



Quando penso em escrever a inspiração não me falta. O cotidiano é uma enciclopédia ambulante: os animais, os amigos, a família, as coisas simples: uma porta, um jardim florido. Trejeitos e expressões ilustram qualquer verso de forma fantástica. Minha tia Zulma tem uma lareira e no inverno amo visitá-la. A labareda ilumina-a em cheio, penetra com a sua luz crua o vestido longo que ela costuma usar, ela sorri de vez em quando e está sempre corada. O papagaio num vôo rasante empoleira sobre os ombros da minha tia e fala “tiamuzulma”, o comportamento do papagaio se assemelha a muitos políticos. Do outro lado do fogão fica o Tio Zezo, olha-nos silenciosamente...Sobre a mesinha uma borboleta dourada de cristal, enfeita o nobre móvel que minha tia herdou de seu pai. Ao olhar a borboleta desejei ser uma, pra absorver todos os acontecimentos secretos e impossíveis. Ah, ultimamente os políticos me inspiram. Ao ler o jornal me sinto deslumbrada e torço para que eles me tragam conteúdo. Alguns são completamente sutis e discretos, outros dissolvem seus argumentos com palavras vazias, outros soltam palavras em forma de pérolas: doces, verdadeiras, transformadoras. Prefiro estes interlocutores sábios que com uma frase já comovem o ouvinte. Parafraseando Gustave Flaubert, “..procure com os olhos no auditório e em torno de si, aplique seus ouvidos, passe pouco tempo, e a andorinha enfim aparecerá à porta’’. Por isso não admito que uma pessoa passeie no seu jardim de bengala na mão, aloje os amigos no ventre das baleias, morra soltando um grito e ressuscite ao fim de três dias: coisas absurdas por si mesmas e completamente opostas, além disso, a todas as leis da física: o que nos demonstra que alguns políticos têm sempre permanecido em uma ignorância torpe, na qual se esforçam por mergulhar as populações. Aproprio-me de todos os discursos. Nada melhor que ser leitora e ouvinte destas palavras que desfilam pelas ruas da cidade. Olho-os como uma cronista curiosa em busca de acontecimentos para os meus textos. Todas as minhas respostas aparecem como música, assim Cássia Elli fala tão bem destas palavras “palavras pequenas, palavras...Ando por aí querendo te encontrar, paro em cada esquina tentando encontrar....palavras apenas, palavras ...momentos....palavras, palavras ao vento”.
A poesia ilustra minhas palavras, os políticos são minha fonte de inspiração...Se eles não existissem minha prosa seria vazia e triste. Por trás dos personagens há uma sensibilidade, consigo detectar. Eles estão inseridos nas poesias mais bonitas do fantástico poeta Eduardo Galeano, e assim definiu o homem “Um homem,da aldeia de Neguá ,no litoral da Colômbia,conseguiu subir aos céus.Quando voltou,contou...Disse que tinha contemplado,lá do alto,a vida humana.E disse que somos um mar de fogueirinhas -o mundo é isso,revelou -um montão de gente,um mar de fogueirinhas.Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras...”
A crônica não quer abafar ninguém, só quer mostrar que faz literatura. Textos feitos para o momento e que, pela qualidade vão ficar para sempre ( Joaquim Ferreira dos Santos). Manuel Bandeira dizia que Rubem Braga era sempre bom, mas quando não tinha assunto era ótimo em suas crônicas. Mas eu gosto mesmo é de escrever sobre política e desencaixoto o Machado “a crônica está no detalhe, no mínimo, no escondido”.
Palavras, palavras...


 


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